Olá, gente boa,
Ontem assinei meu pedido definitivo de aposentadoria do serviço público estadual.
Confesso que, durante muito tempo, imaginei como seria esse momento. Pensei que talvez viesse um vazio, uma sensação estranha de despedida, alguma coisa difícil de explicar.
Mas não foi assim. Não senti vazio.
Talvez porque, olhando para trás, perceba que preenchi cada pedaço dessa caminhada com trabalho, dedicação, paixão, enfrentamentos, aprendizados, amizades e, principalmente, com a certeza de que procurei fazer sempre o melhor que podia.
Minha história no serviço público começou em 1983, quando fui convidado por Jorge Lins, então diretor da Fundesc — Fundação Estadual de Cultura — para trabalhar como técnico de som no Teatro Atheneu.
Eu não sabia, naquele momento, que estava entrando por uma porta que atravessaria praticamente toda a minha vida. Do Atheneu para cá, foram décadas dedicadas à cultura e à arte de Sergipe.
Fui técnico de som, iluminotécnico, gestor, diretor. Estive à frente do Teatro Atheneu, do Teatro Tobias Barreto e do Complexo Cultural Gonzagão. Criei, coordenei e dirigi setores, projetos e programas. Vivi os bastidores, o palco, as salas de reunião, as dificuldades administrativas, as grandes festas, os pequenos projetos e aqueles momentos em que uma ideia parecia impossível até alguém decidir fazê-la acontecer. E tive uma honra que guardarei para sempre: fui o primeiro servidor público de carreira a exercer a função de Secretário de Estado da Cultura.
Isso, para mim, nunca foi apenas um cargo.
Foi a confirmação de que aquele técnico que chegou ao Teatro Atheneu em 1983 havia construído uma história dentro da instituição pública de cultura do seu Estado.
Nessa caminhada, tive professores, chefes, companheiros e referências que me ensinaram muito. Convivi e trabalhei com pessoas como Luiz Antônio Barreto, Fernando Lins de Carvalho, Núbia Marques, Aglaé Fontes, Eugênia Teixeira, Fabiano Oliveira, José Carlos Teixeira, Elber Batalha e João Augusto Gama.
Atravessei diferentes governos, diferentes pensamentos e diferentes maneiras de administrar Sergipe. Trabalhei durante os governos de João Alves Filho, Antônio Carlos Valadares, Albano Franco, Jackson Barreto e, agora, Fábio Mitidieri.
Governos passam. Gestores passam. Nós também passamos. Mas a cultura permanece. E talvez tenha sido essa a principal lição desses anos todos.
Nunca consegui separar completamente o servidor público do músico, do compositor, do produtor, do gestor cultural e do cidadão. Minha vida sempre esteve dividida — ou melhor, compartilhada — entre a música, a cultura e o serviço público.
E não me arrependo. Talvez pudesse ter feito algumas coisas melhor. Como sou exigente comigo mesmo e apaixonado pelo que faço, certamente poderia.
Mas posso dizer, olhando para minha história com serenidade: tudo o que fiz foi também uma forma de devolver aquilo que recebi.
Devolver o que aprendi. Devolver as oportunidades que tive. Devolver a confiança que depositaram em mim. Devolver a Sergipe um pouco do muito que Sergipe me deu.
A cultura é a minha vida. Por ela lutei, trabalhei, discuti, sonhei e, algumas vezes, até soube me afastar quando entendi que a minha presença poderia atrapalhar o andamento de um projeto que considerava importante. Nem sempre foi fácil.
Nunca fui muito bom em guardar aquilo que penso. Um grande amigo me disse certa vez:
— Neu, para que tanta verdade? Tem gente que não aguenta saber da verdade.
Respondi do meu jeito:
— Minha mãe não me ensinou a mentir.
E assim fui vivendo.
Falando, acertando, errando, discutindo, aprendendo, voltando atrás quando era necessário e pedindo desculpas muitas vezes pelos modos — mas não pelos motivos que me fizeram defender aquilo em que acreditava.
Tive embates com gestores, colegas, artistas e chefes. Faz parte da caminhada de quem escolheu não assistir à cultura pela janela, mas entrar nela, participar, defender posições e assumir responsabilidades.
Nunca me arrependi de uma palavra dita sinceramente em defesa do crescimento da cultura de Sergipe. E nunca me arrependi de vestir a camisa. Vesti a camisa da cultura. Vesti a camisa do serviço público. Vesti a camisa dos governos aos quais servi, respeitando a responsabilidade que um servidor deve ter com o Estado, independentemente das mudanças políticas.
E faço isso até hoje. Por isso, quando coloquei minha assinatura naquele pedido de aposentadoria, não senti tristeza.
Senti realização.
A saudade, essa sim, já existe há muito tempo. É uma saudade boa. Saudade de Irmão. De Maurelina. Dos corredores. Dos palcos. Das conversas. Dos amigos que construí no dia a dia do trabalho. Das pessoas que chegavam cedo, saíam tarde e muitas vezes faziam muito mais do que aquilo que estava escrito em suas atribuições. Saudade, principalmente, daquele olhar de quem realmente se importava com a cultura de Sergipe.
Porque uma instituição não é feita somente de prédios, decretos, portarias, cargos ou organogramas.
Uma instituição é feita de gente.
Gente que abre a porta. Gente que acende a luz. Gente que monta o palco. Gente que recebe o artista. Gente que organiza o processo. Gente que sonha.
Gente que briga. Gente que acredita.
Foram essas pessoas que fizeram parte da minha vida.
Agora encerro oficialmente minha trajetória como servidor público de carreira. Mas não encerro minha caminhada na cultura.
Essa aposentadoria é do vínculo funcional.
Não é aposentadoria dos sonhos.
Continuarei músico. Continuarei gestor cultural. Continuarei defendendo aquilo em que acredito. Continuarei contribuindo, provocando, propondo e trabalhando por uma cultura sergipana cada vez mais forte, respeitada e entendida como parte essencial do desenvolvimento econômico, social e humano do nosso Estado.
E continuarei ao lado daqueles em quem acredito. Neste momento, sigo acreditando no governador Fábio Mitidieri, no seu olhar de uma geração que pensa desenvolvimento e na possibilidade de fazer da cultura e da identidade sergipana protagonistas desse novo Sergipe.
Depois de tantos anos, saio do quadro de servidores do Estado sem amargura e sem arrependimentos.
Levo histórias. Levo amigos. Levo saudades. Levo erros que me ensinaram. Levo acertos que me deram orgulho. Levo a consciência tranquila de quem procurou honrar o salário que recebeu do povo sergipano e o lugar que ocupou no serviço público. E, acima de tudo, levo gratidão.
Obrigado a cada colega de trabalho, artista, mestre da cultura popular, técnico, produtor, gestor, servidor, amigo e companheiro de caminhada que cruzou comigo nesses anos. Obrigado à cultura de Sergipe por ter me dado uma vida inteira de motivos para continuar acreditando.
Ontem, uma assinatura encerrou um vínculo.
Mas não encerrou uma história.
Porque enquanto houver um palco para acender, uma música para cantar, um mestre para respeitar, uma memória para preservar, um projeto para construir ou uma batalha pela cultura de Sergipe, de algum jeito eu estarei por perto.
Afinal, depois de tantos anos, não saberia terminar de outra maneira.
Continuarei cantando:
Quereu, Quereu…
Se não quereu, guente eu.
Neu Fontes
Servidor público por uma vida.
Homem da cultura para sempre.
