Olá, gente boa,
Aos 64 anos, prestes a completar 65 agora em abril, é natural que eu venha repensando toda a minha trajetória de vida — desde os tempos de garoto, mas principalmente as escolhas profissionais que fiz.
Escolhi ser artista. Escolhi trabalhar com arte e cultura desde os meus 20 anos. Foi uma escolha difícil, olhando com os olhos de hoje, mas uma escolha feliz, corajosa e inabalável com o olhar sonhador — e sábio — que eu tinha aos 20. Como se, com 20 anos, tivéssemos a certeza de tudo.
Mas foi essa escolha que guiou minha vida. E foi ela que me fez homem e me fez artista.
Sucesso, para mim, nunca foi apenas sair na TV ou ganhar rios de dinheiro. Sucesso é conseguir viver bem da profissão que se escolheu — e isso, com muita luta e entrega, eu consegui.
Construí uma carreira como cantor, compositor, produtor e, com o tempo, aprendi a ser também gestor público na área da cultura. E acredito que me tornei um gestor eficiente, pois a minha trajetória inteira foi aprendizado — e continuo aprendendo, todos os dias.
Entre tantas coisas que vivi e vivo, o que mais me dá satisfação é o reconhecimento dos meus pares. Claro que não agradamos a todos — nem Jesus conseguiu —, mas sei que construí uma carreira sólida, com conhecimento profundo das pessoas e das necessidades da nossa cultura. Cultura que, apesar de criativa e cheia de talentos, precisa ser fortalecida, valorizada e sustentada. E é isso que venho fazendo, junto com tanta gente boa.
Hoje, vejo uma juventude disposta a colocar à prova muitas das teorias e práticas que defendi pela vida inteira. Isso me anima.
Recentemente, tive a honra de participar da comissão avaliadora do edital de concessão do “Grau de Mérito Universitário Especial em Saberes e Fazeres e em Artes e Cultura Popular” da UFS. Lá, conheci nomes preciosos da nossa cultura popular, artistas de grande valor.
Entre eles, uma mulher fenomenal, que além de seu talento imenso, tem a generosidade rara de querer transmitir o que sabe: a Mestra Lêris Andrade.
Essa semana estive em Simão Dias, durante a 45ª edição do projeto Sergipe é Aqui, do Governo do Estado. Visitei o Centro de Memória Digital e o Clube Caiçara, iniciativas belíssimas idealizadas pelo gênio simãodiense Ézio Deda. Dentre tantos atrativos que todos deveriam conhecer, encantei-me com a lojinha do CAS — Casa do Artesanato Simãodiense. Comprei duas obras: uma pequena escultura e um quadro de “enamoras”. Como estávamos apressados, acabei não perguntando os nomes dos artistas. Mas, como vi que estavam assinadas, segui tranquilo.
Mais tarde, reencontrei um estande da Casa do Artesanato no projeto, com artistas em plena criação: um jovem pintando animais com precisão impressionante, e uma senhora retratando um grupo de pífano em uma grande tela. Fiquei ali observando. Alguém comentou: “Esse quadro foi reservado por Daiane, que você conhece.”
Daiane é uma grande gestora, que conheci quando fui Secretário de Cultura de Laranjeiras. Hoje, ela realiza um trabalho exemplar com o artesanato na Secretaria do Trabalho. Respondi: “Se é da minha amiga, eu levo pra ela!” A artista riu, e eu elogiei o trabalho dela.
Foi então que a coordenadora da Casa do Artesanato chegou e, ao me ver, disse: “O quadro que você comprou é dela.” E completou: “A nossa Mestra — título concedido pela UFS.”
Ali tudo se conectou. O nome assinado na tela me soava familiar. Era, de fato, uma das artistas que eu havia avaliado no edital da UFS. Avaliei sem conhecê-la pessoalmente, mas já impressionado pela força de sua história, pelas comprovações e pelo portfólio. Fiquei orgulhoso de vê-la ali, de perto, criando, sorrindo, ensinando.
Por isso, compartilho aqui o parecer que escrevi para o edital, como forma de homenagear essa grande Mestra:
PARECER
Concessão do Mérito Universitário Especial – Saberes e Fazeres, Artes e Cultura Popular
É com grande honra que apresento este parecer sobre a candidatura de Lêris Fernanda Andrade, conhecida artisticamente como Lêris Andrade, para a concessão do título de Mérito Universitário Especial em Artes e Cultura Popular.
Trajetória Artística e Cultural
Lêris Andrade construiu uma carreira de 40 anos dedicados às artes plásticas, destacando-se como uma defensora e divulgadora fiel da cultura nordestina e regional. Seu trabalho não apenas celebra as tradições culturais, mas também as preserva e transmite às novas gerações, consolidando um legado artístico profundo e singular.
Nascida em Simão Dias, Sergipe, teve sua inspiração inicial no ambiente cultural da cidade natal. Suas obras — reconhecidas pela vivacidade das cores e pela capacidade de captar a alma do Nordeste — transitam entre o figurativo e o abstrato, com destaque para peças icônicas como Lampião e Maria Bonita, O Violeiro, O Vaqueiro e Os Guardiões da Terra.
Reconhecimentos e Impacto
Ao longo de sua trajetória, Lêris recebeu homenagens e prêmios, como o título de “Mestre dos Saberes e Fazeres das Culturas Populares” pelo município de Simão Dias — sendo a primeira artista a receber tal honraria.
Sua obra ganhou projeção nacional e internacional, sendo destaque na XXI Bienal de Arte de Cerveira, em Portugal, onde a tela Os Guardiões da Terra representou Sergipe e o Brasil. Também esteve presente em coleções particulares e institucionais dentro e fora do país, a partir de exposições como no Projeto Tamar, na Praia do Forte (BA).
Contribuição Social e Educacional
Além da produção artística, Lêris atua como educadora e ativista cultural. Conduz oficinas voluntárias para jovens, idosos e crianças em situação de vulnerabilidade, em instituições como o SCFV e o CECRA SD. Nesses espaços, promove inclusão, resgata saberes e fomenta novos talentos — reafirmando a arte como ferramenta de transformação.
Conclusão
Diante de sua trajetória exemplar, do impacto de suas obras no fortalecimento e disseminação da cultura popular nordestina, bem como de sua dedicação ao ensino e à preservação dos saberes tradicionais, considero que Lêris Andrade reúne todos os méritos para receber o Grau de Mérito Universitário Especial em Artes e Cultura Popular.
É por essas e por outras que, mesmo cansado às vezes, triste talvez — mas nunca frustrado —, continuo resistindo à vontade de desistir.
Pra uns, isso é alegria. Pra outros, uma tristeza.
Mas o fato é: ainda estou por aqui. E sigo
