Olá gente boa,

Quem te vê, nunca te esquece. Vive sempre a sonhar.

Aracaju chega aos seus 171 anos como quem carrega no peito a leveza do vento do mar e, ao mesmo tempo, a força de um povo que nunca deixou de acreditar. Teus encantos são raros, daqueles que não se explicam — se sentem. A Atalaia sob um céu azul, o cheiro do sal, o som das ondas, o caminhar despreocupado de quem sabe que aqui existe um jeito próprio de viver.

Foi aqui que nasci, no dia 30 de abril de 1960, na Maternidade Augusto Leite. Foi aqui que aprendi a ser gente. Entre as ruas Divina Pastora e Zaqueu Brandão, nas calçadas largas e na Praça da Bandeira, construí minhas primeiras memórias. No campinho improvisado, com amigos que a vida me deu — Milson, Marcelinho, Neto, Carlinhos, Lula, Bira, Agnaldo, Ari — aprendi o valor da amizade, da partilha e da alegria simples.

Foi aqui também que roubei meu primeiro beijo, vivi meus primeiros amores e descobri que o coração da gente também tem endereço — e o meu sempre apontou para Aracaju.

Minha cidade é minha musa. Minha tela em branco. Foi nela que encontrei a música, que aprendi a tocar, a compor, a transformar sentimento em canção. Mesmo quando as rimas não eram perfeitas, era perfeita a inspiração. Porque Aracaju não exige perfeição — exige verdade.

E com ela, fiz muitas canções. Canções de amor, de saudade, de crítica, de pertencimento. Com parceiros que também carregam essa cidade no peito, como Jorge Lins, escrevemos versos que eternizam esse sentimento:

“Quem te viu como te vi, menina, guarda sempre uma canção…”

Ou ainda, nas vibrações mais intensas da nossa identidade:

“Quero ver você, Paixão Prazer, enlouquecer Aracaju.”

Com Alexi Pinheiro, encontramos no cotidiano da cidade a poesia das coisas simples e também o desabafo dos tempos difíceis:

“Pinga de cajueiro e coqueiral… leve a vida com o sol, meu bem, de Aracaju.”

Porque Aracaju também é isso: beleza e contradição. Encanto e enfrentamento.

Hoje, mais do que celebrar, é preciso refletir. Vivemos um tempo em que a cultura disputa espaço com a superficialidade. Onde a identidade muitas vezes é colocada em segundo plano diante do espetáculo fácil, da festa vazia, do investimento que não retorna para quem realmente constrói a alma dessa cidade: o seu povo.

Há uma batalha em curso — entre a cultura verdadeira e o brilho passageiro, entre o pertencimento e a importação de modelos que não nos representam, entre a política pública séria e os atalhos da conveniência.

Mas Aracaju não é ingênua.

Ela pode ser jovem na história, mas é madura na consciência. Sabe que o futuro se constrói com responsabilidade, com respeito à sua gente e com valorização da sua identidade. E quando precisa, responde. Responde nas ruas, nas vozes, nas urnas, na cultura.

Lembro aqui também de Alcides Melo, que com sua poesia crua e verdadeira nos apresentou uma cidade que muitos não querem ver, mas que existe — pulsante, viva, humana. Uma cidade das docas, das feiras, dos becos, dos trabalhadores invisíveis que sustentam o cotidiano. Uma cidade real.

E é essa cidade que eu canto.

Nas marquises, nas bancas de peixe, nos mercados, nas praias, nos palcos e nas esquinas. Como fez Thales Ferraz, como fazem tantos artistas que traduzem em arte aquilo que o povo sente.

Aracaju é mais que paisagem. É sentimento.

É memória de mãe, de pai, de amigos. É som de radiola antiga, é cheiro de comida feita em casa, é riso de criança na rua. É luta diária, é resistência, é criação.

E eu, filho dessa terra, sigo aqui.

Atento. Inspirado. Comprometido.

Lembrando Claudio Miguel e o Cataluzes, fico aqui na Atalaia, mirando as ondas do mar, conversando com o tempo e com a lua, entendendo que amar uma cidade é também cuidar dela, defendê-la e lutar para que ela seja, todos os dias, mais justa, mais humana e mais nossa.

Viva Aracaju, minha estrela.