Olá gente boa,
Em mais de 40 anos de vivência na cultura, constatei que muitos se autodenominam defensores do fazer cultural sem a mínima compreensão do que isso realmente significa. É comum encontrarmos pessoas que acreditam ser especialistas simplesmente porque gostam de ouvir música, frequentar o cinema para comer pipoca, assistir a um amigo no teatro ou decorar suas casas com obras de arte. Não me entendam mal, o consumo de arte é essencial — a arte é, afinal, para todos, traz paz de espirito e sustentabilidade para quem faz. Contudo, isso não transforma ninguém em um expert ou em um verdadeiro defensor da cultura.
Há ainda aqueles que, temendo o tal “cancelamento” — essa palavra da moda que indica rejeição social —, preferem dizer apenas o que todos querem ouvir. Essa postura não contribui em nada, nem para gestores nem para os próprios fazedores dessa sofrida e amada cultura. A verdade é que precisamos de coragem para fazer críticas construtivas e propor caminhos reais.
A gestão dos editais do Ministério da Cultura, como a Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo, revela muito sobre a nossa capacidade (ou incapacidade) de utilizar recursos de forma estratégica. A primeira Aldir Blanc, criada em um cenário de crise humana durante o governo autoritário e desequilibrado, surgiu num momento de grande tensão e sofrimento para a população. À época, tínhamos um governo que claramente desejava extinguir a cultura e marginalizar seus fazedores, temendo a resistência que sempre oferecemos às tentativas de imposição de ditaduras, como fizemos nos anos 60. Foi naquelas ruas que cantamos: “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. Esses covardes temiam a força da arte, e por isso espalharam mentiras nas redes sociais e em seus “iPhones 16”, posando como defensores da família, da honestidade e da liberdade. Contudo, nunca mencionaram a paz, o amor, a fraternidade, a amizade e o respeito entre todos.
Em Sergipe, a Lei Aldir Blanc injetou cerca de R$ 50 milhões em um mercado que historicamente recebia menos de R$ 1 milhão em fomento anual. Desse montante, aproximadamente R$ 25 milhões foram distribuídos pela instituição governamental local a mais de 1.400 fazedores culturais. Isso gerou um crescimento inesperado, com artistas e projetos surgindo em cada esquina do estado. Porém, é preciso perguntar: o que foi construído de duradouro? Quais impactos reais chegaram à população? E como aproveitar os aprendizados para otimizar os recursos futuros?
A Lei Paulo Gustavo, que destinou 54,4 milhões de reais para o nosso estado, está com os pagamentos sendo finalizados. Agora, nos preparamos para o início do Programa Aldir Blanc II, que trará mais investimentos significativos para a cultura. Como destacou um de nossos governantes: “Nunca na história deste país houve tanto investimento em uma área tão esquecida e desdenhada como a Cultura”.
Este é o momento de avaliar o impacto desses quase 100 milhões de reais investidos em um estado tão pequeno. Precisamos analisar o que mudou no cenário cultural de Sergipe: como ficaram os nossos fazedores de cultura, quem de fato aproveitou os recursos, o que foi construído para o futuro e, principalmente, o que chegou à população.
Em meio a esse cenário, será lançado na próxima segunda-feira, 9 de dezembro, o segundo edital aberto pela Funcaju da PNAB: o Laboratório de Informações da Capital. Este edital oferecerá bolsas para pesquisadores, com o objetivo de criar dados e compreender os desdobramentos desses investimentos no setor cultural.
Felizmente, algumas transformações já são visíveis, especialmente em Aracaju. O projeto Colore, com seus grafites vibrantes, tem ressignificado espaços públicos, enquanto o movimento Hip Hop se destaca com batalhas de Slam, rodas de conversa e produções que vêm ganhando projeção nacional. Além disso, eventos multiculturais como o Festival Aqui Tem Castanha demonstram o potencial da economia criativa local.
O festival, realizado neste fim de semana (7 e 8 de dezembro) na Praça General Valadão, uma entrega da LPG pela Funcaju, apresenta uma rica programação que inclui:
- Grupos de Cultura Popular nos palcos principal e aberto.
- Workshops e Rodadas de Negócios, com foco na economia criativa e na formação cultural.
- A Feirinha da Gambiarra e os RetroGames, com mais de 60 expositores sergipanos.
- Um espaço de gastronomia que celebra os sabores da região.
- Apresentações de 15 artistas sergipanos de destaque todos comtemplados pela LPG Funcaju, como Julico (The Baggios), Sandyale, Pedro Luan, Mestre Madruguinha, entre outros.
Esse evento, organizado por uma produtora jovem e empreendedora, é um exemplo a ser seguido. Ele mostra como circuitos culturais podem levar arte e identidade aos bairros, aproximando a cultura da população e valorizando os talentos locais.
Agora, mais do que nunca, precisamos de planejamento. Os recursos estão disponíveis, mas sem estratégias claras eles podem se diluir em ações passageiras, sem deixar um legado significativo. É essencial criar políticas que não apenas apoiem os fazedores culturais, mas que também fortaleçam a conexão entre arte, cultura e sociedade.
Minha esperança está nos artistas e gestores comprometidos que, apesar dos desafios, seguem acreditando no poder transformador da cultura. Está também nos eventos que mostram que é possível fazer diferente, integrando inovação, tradição e impacto social.
A crítica é necessária, mas deve ser acompanhada de ação e esperança. Precisamos acreditar que, com esforço coletivo e visão de longo prazo, a cultura sergipana pode florescer ainda mais, alcançando cada bairro, cada comunidade, cada cidadão. Afinal, a cultura não é apenas um reflexo do que somos; é também um instrumento poderoso para construir o que queremos ser.
