Ao ponderar sobre a aposentadoria, questiono se ela deve ser encarada como um prêmio ou um castigo. Este dilema não afeta apenas aqueles que estão prestes a se aposentar, mas também impacta todos aqueles que dependem das brilhantes ideias e contribuições dos aposentados.

No Brasil, infelizmente, a experiência dos aposentados não é devidamente reconhecida nem valorizada, em contraste com alguns países onde os Mestres Aposentados são tratados com respeito e apreço. Por exemplo, na Universidade de Harvard, doutores notáveis que se aposentam são convidados a continuar a contribuir para a instituição, trazendo suas valiosas perspectivas para institutos de ciência e educação.

Esta semana a pedido, o governo de Sergipe aposentou Lindolfo Amaral, que foi o técnico mais destacado que a Secretaria de Estado da Cultura já teve ao longo de sua história institucional. A Secretaria foi dissolvida pelo governador Belivaldo Chagas em sua tentativa de reduzir a importância da cultura, e seus funcionários foram incorporados à Secretaria de Educação e Cultura. Por mais de quatro anos, Lindolfo Amaral trabalhou como auxiliar na administração do Conselho Estadual de Cultura.

Lindolfo Alves do Amaral Filho possui uma rica formação acadêmica, incluindo uma graduação em Licenciatura em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Sergipe (1983). Ele também concluiu uma Pós-graduação em Educação Artística, com especialização em Teatro, pela Universidade Federal da Paraíba (1984). Além disso, Lindolfo participou do Curso Interamericano de Política e Administração Cultural, em nível de Pós-graduação, na Universidade Federal da Bahia, por meio de um convênio com a OEA (1984). Suas conquistas acadêmicas incluem um Mestrado em Artes Cênicas, pela Universidade Federal da Bahia (2005), e um Doutorado em Artes Cênicas, também pela mesma universidade (2013). Além disso, ele realizou um pós-doutorado na UFBA (2016). Ele também é ator e professor no Grupo Imbuaça Produções Artísticas desde 1978. Sua experiência profissional está centrada na área de Educação, com foco em Artes e Comunicação, onde ele se destacou em temas como teatro de rua, teatro popular, teatro brasileiro, dramaturgia e cordel. Seu currículo é verdadeiramente impressionante, bastando uma rápida pesquisa para confirmar isso.

Lindolfo pertence a uma família com fortes raízes culturais. Um Itabainense, irmão mais novo de Zé do Amaral e Antônio do Amaral, os fundadores dos grupos Imbuaça e Cataluzes. Conheci Lindolfo em 1981, quando ele trabalhava como funcionário na Subsecretaria de Cultura, localizada na biblioteca pública Epifânio Dórea. Naquela época, ele estava envolvido na impressão utilizando as máquinas de mimeógrafo. Já era membro do grupo Imbuaça, fundado em 1978, enquanto estudava Biologia na Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Nossa colaboração continuou quando ambos trabalhamos na Fundação de Desenvolvimento Cultural de Sergipe (Fundesc) e posteriormente na Secretaria de Estado da Cultura. Lindolfo possuía uma vasta experiência e expertise, tornando-se um dos meus professores na área de gestão pública. Seu amor pelo teatro o transformou em um dos maiores especialistas em arte cênica do país. Ele teve a oportunidade de estudar na Escola Internacional de Teatro em Havana, Cuba, e na Escola de Antropologia Teatral sob a direção de Eugênio Barba.

Sua contribuição para a criação do Curso de Licenciatura em Teatro da UFS foi notável, embora tenha sido afastado do concurso que passou para se tornar professor efetivo do curso. Lindolfo ministrou cursos de Teatro de Rua em diversos estados brasileiros, dirigiu espetáculos em Sergipe, Alagoas e Rio Grande do Norte, e seu conhecimento foi fundamental para elevar o grupo Imbuaça ao status de ícone no teatro de rua do Brasil. Na Secretaria de Estado da Cultura, ele criou diversos projetos como o Festival de Artes Cênicas, a Semana da Dança e os Editais de auxílio à montagem, entre outros momentos importantes na gestão pública.

A aposentadoria de Lindolfo, baseada em sua trajetória, é verdadeiramente merecida e deixa um vazio na gestão cultural. É um setor que carece de técnicos capacitados, projetos sólidos e planejamento estratégico. Infelizmente, no Brasil, poucas pessoas encaram a aposentadoria com alegria, exceto no judiciário, onde a aposentadoria compulsória frequentemente é vista como um prêmio. Em muitos setores, os trabalhadores se tornam dependentes e enfrentam desafios financeiros após a aposentadoria.

Lindolfo agora terá mais tempo para se dedicar ao Imbuaça e suas aulas pelo Brasil. A universidade poderia aproveitar a oportunidade para reconhecê-lo e enriquecer seu quadro de doutores. No entanto, a gestão cultural em Sergipe perde um colaborador valioso, um articulador experiente e um pensador criativo. Tudo isso ocorre devido à falta de sensibilidade e discernimento.

Sempre que situações como essa ocorrem, a comunidade artística expressa indignação em círculos internos, elogiando a contribuição do indivíduo e lamentando sua partida. Entretanto, essa indignação raramente é levada à sociedade em geral, onde as decisões são tomadas. Fica no âmbito da teoria, sem ação prática, e é por isso que a relação entre cultura e gestão muitas vezes é frágil. Quando chega a hora de agir, a palavra-chave frequentemente é “amém”.

Certamente, haverá aqueles que dirão que Lindolfo está satisfeito com sua aposentadoria, e é provável que esteja, uma vez que passou vários anos sem receber o reconhecimento merecido, apesar de possuir um currículo invejável. No entanto, surge a pergunta: E a cultura? Outros podem argumentar que todos são substituídos em algum momento, referindo-se à capacidade de renovação, e não à capacidade daqueles que estão deixando seus cargos. Portanto, permita-me apresentar algumas ideias humildes aqui. Acredito que seria um grande erro subestimar as qualidades e habilidades de Lindolfo Amaral, um membro imortal da Academia Aracajuana de Letras, para representar com maestria a Casa de Santo Souza no Conselho Estadual de Cultura.

A Secretaria de Educação, Cultura e Desporto (Serduc) teria muito a ganhar ao contratá-lo como consultor para uma nova empreitada cultural e educacional, com um enfoque especial no teatro. Suas ideias poderiam revitalizar a cultura do estado, contribuindo para projetos inovadores que fomentariam a riqueza artística e educacional de Sergipe.

Afinal, existem inúmeras ideias e projetos em que ele poderia colaborar para impulsionar o crescimento cultural de Sergipe. Seus conhecimentos vastos e sua experiência sólida são ativos valiosos que não deveriam ser desperdiçados. Lindolfo Amaral tem potencial para desempenhar um papel fundamental na evolução cultural e educacional da região, e sua dedicação poderia inspirar outros a seguirem o mesmo caminho de excelência.

De fato, é importante olhar além das fronteiras do presente e reconhecer que a contribuição de Lindolfo pode continuar a moldar o futuro cultural de Sergipe. Sua sabedoria e paixão pelo teatro podem ser canalizadas para criar um legado duradouro, que beneficiará tanto a geração atual quanto as futuras.