Olá, gente boa,

Quando a gente ouve alguém começar uma frase com “Antigamente…”, logo vem à cabeça a palavra calçada. Aquele tempo em que todos se reuniam para ouvir os mais velhos contando experiências, casos e causos de uma vida que ficou para trás — mas que seguia ensinando o presente.

Ontem, aproveitando as férias, estava zapeando — ou, como dizíamos antigamente, catando, procurando alguma coisa interessante para assistir — quando me deparei com o Festival 79 da TV Tupi. Aquilo não era só um festival: era um campo de batalha criativo. Uma disputa entre gerações, os artistas da década de 60 buscando espaço junto aos novos da década de 70.

Ali estavam Caetano, Jorge Ben, Fagner, Diana Pequeno, Elba Ramalho, Décio Marques, Chico Evangelista, Jorge Alfredo, Antônio Risério, Walter Franco cantando Canalha, Bubuska Valença avisando que “tá faltando tempo, tá faltando vento, tá todo mundo cheio de taratatá”, Oswaldo Montenegro com seus bandolins, Kleiton & Kledir puxando Maria Fumaça, Arrigo Barnabé com seu Sabor de Veneno. Era uma travessia sonora que ia da MPB à música de vanguarda.

Mas, no fundo, todos enfrentavam os mesmos inimigos: a ditadura, a repressão, a censura, a idolatria pelo que vinha de fora e a hipocrisia dos tempos. Como já diziam Macalé e Moreira da Silva: “Tire os óculos e recolha o homem.” Um samba de breque contra a repressão, cheio de graça, ironia e inteligência.

Não sou saudosista, mas minha juventude foi boa demais. Não tínhamos mitos imbecis nem políticos de cabeceira. Tínhamos referências — na música, no cinema, na literatura, no teatro. Jovens de pele boa, ideias geniais, cada um tentando construir um futuro mais livre e democrático, sempre indo contra a ordem imposta desde a invasão portuguesa e perpetuada pelos velhos escravagismos.

Minha juventude era linda. Meninos e meninas inteligentes, curiosos, desejosos de aprender, buscando liberdade para conquistar um futuro melhor. E, ao mesmo tempo, sabíamos respeitar os mais velhos e reconhecer as boas referências.

Viemos de uma década marcada pelo medo. A repressão era regra, o silêncio era imposto. Até que chegou uma juventude de luta e força criativa, que aprendeu com todos os que foram perseguidos, reprimidos e torturados.

Inspiração é como uma brisa suave que nos atravessa e desperta algo profundo. Ela não manda, não ordena — ela convida. Nos impulsiona a criar, sonhar, ser melhores. Os grandes artistas não dizem o que fazer; eles mostram o que é possível. Inspirar é provocar um desejo de mudança que nasce de dentro.

Foi assim a minha juventude. Aprendemos até com Jesus — que hoje alguns “influenciadores” chamam de o maior influenciador de todos os tempos, prova clara da ignorância dos tempos atuais. Jesus não influenciou ninguém: ele inspirou. Inspirou práticas, escolhas, caminhos. E por isso, depois de mais de dois mil anos, segue vivo na memória.

Influenciar, ao contrário, carrega intenção e direção. É moldar comportamentos, opiniões e decisões. Um poder que pode ser usado para o bem, mas que quase sempre serve ao mal. A publicidade sabe disso. A política autoritária também. Foi assim que agiu a ditadura militar com slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o” e “Quem não vive para servir ao Brasil, não serve para viver no Brasil”.

Já a juventude inspirada por artistas, poetas, compositores e pensadores dizia:
“É proibido proibir.”

“Paz e amor.”

“Faça amor, não faça guerra.”

Assim atravessamos décadas olhando para os lados e encontrando sempre alguém ou algo inspirador — no Brasil e, especialmente, em Sergipe.

Como tento fazer do meu blog um espaço de memória e inspiração, deixo aqui registrados nomes que ajudaram a construir minha caminhada e que podem ajudar os jovens a entender melhor os caminhos dos nossos “velhinhos” de hoje. Para que um dia eles também possam dizer: “Antigamente, tivemos artistas e pessoas inspiradoras”.

João Argollo, Henrique Sousa, João Melo, Maria Olívia, Luís Antônio Barreto, Pedrinho dos Santos, Alexi Pinheiro, Denys Leão, Joésia Ramos, Emanuel Dantas, Genival Nunes, Jorge Lins, Lu Spinelli, Mestre Deca, Lindolfo e Antônio Amaral, Cláudio Miguel, Cecília Cavalcante, Cleanis, Nery, Aglaé Fontes, José Calazans, Jackson da Silva Lima, Jorge Carvalho, Rubens Lisboa, Gena e Thiago Ribeiro, Val França, Leonardo e Hunald Alencar, Rogério e Pedro Lua, Joaquim Antônio, Alberto Silveira, Saulo Ferreira, Ricardo e Rebeca Vieira, Ézio Déda, Marcelo Ribeiro, Amorosa, Zé Rolinha, Maria da Conceição, João Ventura, Chico Queiroga, Lula Ribeiro — inspirações novas e maduras que me ajudaram a ser quem sou.

Voltando a modernidade digo:

Não queremos likes.

Queremos sentido.

Não queremos seguidores.

Queremos consciência.

Não queremos tendência.

Queremos raízes.

A cultura não se mede por alcance, mas por permanência.

Não se faz com dancinha, se faz com risco.

Não se constrói com filtro, se constrói com verdade.

Que a nova geração não confunda barulho com voz, nem visibilidade com valor.

O futuro não precisa de influência.

Precisa de inspiração, ética e coragem.

Ah…

Que saudade da nossa juventude.