Olá, gente boa!

 

Quando falamos frases como “Na minha época…” ou “Sou do tempo que…”, é a prova cabal de que estamos ficando velhos e saudosos de uma vida vivida, guardada na memória do tempo. Uns dizem que era um tempo melhor, enquanto outros contestam e afirmam: “É nada, hoje tudo é tão fácil”. Eu, por minha vez, acredito que havia muitas coisas boas, mas também algumas dificuldades. Na minha juventude, por exemplo, convivi com a Ditadura Militar, que alguns insistem em dizer que não existiu — aqueles que se beneficiaram dela e os que não viveram esse período. Só para constar, a corrupção era ainda maior do que hoje, pois quem fiscalizava era o próprio sistema, que o diga a construção da Ponte Rio-Niterói. Fora isso, tínhamos uma vida com muito menos gente, o que nos permitia conhecer quase todo mundo.

 

Uma grande vantagem daquela época era poder, aos 11 anos, ir para a escola sozinho, andar pelos bairros vizinhos, jogar bola nos campinhos ou soltar pipa na Praça da Bandeira. Essa praça era um verdadeiro palco para os circos e grandes parques de diversão, como o maior tobogã que apareceu por essas bandas. No São João, fechávamos as ruas e comemorávamos com fogos, fogueiras, milho e tudo a que tínhamos direito. Os arraiais nasciam nas portas das casas, tornando-se uma festa familiar que envolvia todos os sergipanos, do Rio Real ao São Francisco. Talvez seja por isso que devemos nos orgulhar de sermos o País do Forró, o País da festa e dos festejos juninos.

 

Já o carnaval acontecia nos clubes, nos blocos de carreta ou nos calhambeques Dodge e Landau cortados. Íamos aos bailes infantis da Associação Atlética de Sergipe, do Iate Clube, do Cotinguiba, do Vasco, da AABB. À medida que crescíamos, queríamos frequentar os bailes noturnos, o que só aconteceu para mim aos 13 anos, levado por meus tios e tias à Associação Atlética. Lá, o som era comandado por bandas como Los Guaranis, Brasa Dez, Unidos em Ritmo, Os Nômades, Embalo D, Os Vickings e Cassino Royale, entre outras.

 

Mas foi em 1976, aos 15 anos, que ganhei minha tão sonhada emancipação para sair sozinho e frequentar festas e eventos pela cidade. Já tocava violão desde os 9 anos e era compositor, então, além da farra, gostava de apreciar os bons músicos das bandas locais. O carnaval era uma grande oportunidade para ver uma orquestra completa. O auge daquela época era a banda Los Guaranis, de Lagarto, com excelentes músicos e um naipe de metais imbatível. Com alguns amigos e vizinhos, fui ao baile da Atlética. Fantasiado de bombeiro — pois comprávamos macacões dos postos BR, Shell ou Ypiranga —, fui no primeiro dia, um sábado. A banda era Los Guaranis, não poderia ser melhor! Dançamos, nos divertimos, arrumamos algumas paqueras, trocamos uns beijinhos e voltamos para casa ansiosos pelos próximos dias.

 

No domingo, às 22h30, já estávamos na porta do clube. Os primeiros acordes da banda ecoavam, e ao entrar, reencontramos as paqueras da noite anterior. Subíamos para o salão, dançávamos, descíamos para respirar. Em uma dessas saídas, na escada lateral do salão, avistei uma menina fantasiada de havaiana, com um pequeno sarongue e um top do mesmo tecido. Ela passou por mim, e algum amigo soltou uma gracinha. De imediato, reprimi o comentário. Ela olhou para mim e sorriu. Pela primeira vez, nem pisquei. Fui ao encontro dela e disse: “Vamos dançar?” Ela balançou a cabeça afirmativamente. Assim, passamos todo o carnaval juntos. Beijamos mais do que dançamos. Ela me contou que era baiana de Senhor do Bonfim e que havia se mudado para morar com a irmã. Nos dias de folia, já sabíamos tudo um do outro — afinal, tínhamos a mesma idade.

 

Ao som dos Los Guaranis, que tocavam todas as marchas, frevos e sambas conhecidos, além dos hinos dos clubes como Bahia, Flamengo e Sergipe, o carnaval chegou ao fim. Na manhã da Quarta-feira de Cinzas, nos despedimos prometendo que nos reencontraríamos. Fui para casa dormir o dia todo e acordei à noite com o refrão na cabeça: “Mais um, mais um, Bahia; Mais um, mais um título de glória; Mais um, mais um, Bahia. É assim que se resume a sua história.” Mas a minha história não se resumia apenas a isso.

 

Hoje, dia 2 de março de 2025 em pleno carnaval, fazem exatos 49 anos daquele dia. Ainda estamos aqui, juntos, grudados, com três filhas, dois netos e uma vida inteira de convivência. Enfrentamos tudo, passamos por 49 carnavais. Brinquei, dancei e cantei em muitos carnavais, palcos e trios. E sempre ao meu lado esteve minha havaiana, minha baiana, minha companheira, sempre me impulsionando, sempre comigo. Amor, paixão, admiração, tesão, coragem, preocupação, cuidado, amizade… tudo isso se resume em uma palavra: “Cássia”, meu amor.