Olá, gente boa,
Volta e meia sou provocado, com certo descaso, se entendo tudo de arte. Respondo no mesmo tom de quem pergunta: “entendo sim”. E saio rindo… porque, na verdade, não entendo nem a metade do que o povo diz.
Mas uma coisa eu sei — e sei bem: reconhecer a alma de artista, o talento, a força da alma popular.
A vida tem dessas surpresas bonitas. Às vezes a gente acha que conhece alguém por inteiro, sabe o que faz, do que é capaz… e de repente descobre outros dons, outras camadas, talentos guardados que nunca vieram à luz como deveriam. Esse é o caso desse cabra nascido em Aracaju, mas criado em Lagarto, onde construiu suas primeiras memórias: jovem brincalhão, arrumador de confusão e namorador contumaz.
Desde cedo gostava de desenhar. Foi esse gosto que o levou, depois de estudar no Jackson de Figueiredo e na Escola Técnica Federal de Sergipe, a trabalhar com edificações — desenhando obras, acompanhando construções, lidando com formas e traços que já anunciavam algo maior.
Mas o destino não estava apenas em Lagarto.
De volta à capital, nos anos Oitenta, ele cria o já lendário Gosto Gostoso — que rapidamente se transforma num verdadeiro quartel-general da juventude inquieta de Aracaju. Um espaço de liberdade, de encontros, de ideias, de música, de resistência. Ali, entre uma maniçoba caprichada, uma tripa torrada, um frango a passarinho e um sarapatel de calar qualquer discurso inflamado, nasce também o “Cabra Véio” Fernando Montalvão.
E já naquela época se dizia: “esse homem tem dom”. Não só pela cozinha — que carregava saberes ancestrais — mas pela capacidade de reunir gente, criar ambiente, fazer acontecer.
Do balcão do bar para os palcos da cidade, Fernando vai se transformando em produtor artístico. Aprende na prática, no dia a dia, com o povo, com os artistas, com a vida. Amigueiro, agregador, desses que transformam contrato em amizade. De Sergival e Sena a Genival Lacerda, de Xangai a Alceu Valença, vai construindo uma trajetória sólida, respeitada, verdadeira.
Chega então à Funcaju, no governo do amigo Marcelo Déda, onde coordena eventos e, por mais de duas décadas, ajuda a construir o Forró Caju — um dos maiores símbolos da nossa identidade cultural. Ali consolida seu nome, vira referência para artistas locais e nacionais, sempre com o pé fincado na valorização do que é nosso.
Mas a vida ainda guardava mais uma virada.
De repente, aquele talento silencioso, que sempre esteve ali no traço, na cor, no olhar — ganha o mundo. Surge o artista das artes visuais que estava escondido por trás do produtor, do cozinheiro, do articulador cultural. Sua primeira exposição, com obras infantis, já mostra o tamanho do coração: todas doadas para escolas públicas.
E não parou mais.
Vieram novos convites, a Galeria Álvaro Santos, novos desafios… e o vício bom de criar tomou conta. Hoje, chega à sua terceira exposição: “Alma Popular”, com 20 obras que traduzem, com sensibilidade, o universo da cultura popular.
“Alma Popular” é mais que uma exposição. É um mergulho íntimo nas raízes de Fernandinho. Nas cores, nas formas, nas texturas, está o povo nordestino e sergipano que ele conhece de perto: um povo de fé, de festa, de luta, de alegria.
Fernando Montalvão — ou Fernandinho, ou simplesmente Cabra Véio — é desses artistas que a gente tem vontade de chegar perto, abraçar, prestigiar. Porque ele é feito dessa mistura bonita de talento com verdade.
E agora temos essa oportunidade.
Dia 05 de maio, às 9h
Corredor de Arte da Secult
Av. Murilo Dantas, 881 – Galeria Farol Center – 1º andar
Vá. Veja. Sinta.
Porque quando a alma é popular… a arte fala direto com a gente
