Olá gente boa,

Na última cerimônia do importante Festival Internacional de Cinema – Globo de Ouro, o Brasil celebrou um momento histórico. Fernanda Torres, atriz consagrada e herdeira de uma longa tradição artística, foi premiada como Melhor Atriz pelo filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles. Protagonizado por Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, que interpretam Eunice Paiva em diferentes fases da vida, e com Selton Mello no papel de Rubens Paiva, o longa reafirma a relevância do cinema brasileiro como uma força criativa e política no cenário global.

Com um roteiro visceral de Murilo Hauser e Heitor Lorega, inspirado na autobiografia homônima de Marcelo Rubens Paiva, “Ainda Estou Aqui” nos toca fundo ao trazer a luta de Eunice Paiva, advogada que se tornou ativista política após a prisão e desaparecimento de seu marido pela ditadura militar brasileira. Não é apenas um filme; é um soco no estômago que revisita um período sombrio da nossa história, denunciando as cicatrizes deixadas por um regime que muitos ainda tentam minimizar ou apagar.

Vivemos tempos em que a cultura, constantemente atacada por setores ultraconservadores, se reafirma como ferramenta de resistência e de identidade. A arte, que sempre serviu como espelho e crítica de nossas sociedades, é também alvo de ressentimento, racismo e anticomunismo – elementos que, historicamente, sustentaram regimes autoritários como o nazismo, cuja essência incluía o ódio à cultura e à liberdade de expressão.

Essa conquista chega em um momento crucial, quando setores da extrema direita tentam reescrever a história, negando a existência da ditadura e deslegitimando as vozes que resistiram à opressão. Ao mesmo tempo, esses grupos atacam a cultura com discursos de ódio e desinformação, alegando que os recursos destinados à arte deveriam ser realocados para infraestrutura – uma narrativa mentirosa, como se as rubricas fossem as mesmas e ignorassem o impacto econômico e social da cultura. O filme, ao expor a verdade crua e dolorosa de um regime militar opressor, torna-se um grito de resistência e memória.

O discurso reacionário, alimentado por racismo, homofobia, Xenofobia, Aporofobia, ressentimento e manipulação perversa da fé religiosa, tenta iludir a população com promessas vazias, enquanto propaga ódio e desprezo pelo ser humano. Mas o cinema brasileiro e a cultura, fortalecido por políticas como a Lei Rouanet e o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), responde de forma contundente: a arte é resistência, memória e futuro.

Distribuído internacionalmente como I’m Still Here, o filme estreou em 7 de novembro e já arrecadou impressionantes R$ 62,7 milhões. Além do sucesso de bilheteria, conquistou prêmios e indicações em importantes festivais, coroando Fernanda Torres como Melhor Atriz e reafirmando a potência narrativa do cinema brasileiro.

Curiosamente, “Ainda Estou Aqui” não utilizou recursos da Lei Rouanet, pois sua duração de 2h19m não se enquadra nos critérios da legislação, que desde 2007 não permite o financiamento de longas-metragens. A Lei nº 8.313/1991, em seu artigo 3º, inciso 2, determina que os recursos sejam destinados a obras cinematográficas de curta e média-metragem e filmes documentais. Ainda assim, a produção encontrou seu caminho por meio de parcerias e investimentos independentes. Um pequena informação para os afetados, entufados, opiniosos, pedantes e jactanciosos de plantão.

Apesar dessa limitação, o impacto positivo da Lei Rouanet e do FSA no crescimento do cinema brasileiro é inegável. Essas políticas públicas têm fomentado o desenvolvimento de novas narrativas, promovido o acesso à cultura e fortalecido a presença do Brasil no mercado internacional.

“Ainda Estou Aqui” é mais do que um filme; é uma prova viva de que a cultura não apenas sobrevive, mas floresce diante dos ataques. Como sugere a letra de Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.”

Parabéns a Fernanda Torres, Walter Salles, Marcelo Rubens Paiva, Selton Mello, Fernanda Montenegro e toda a equipe técnica, além dos demais vencedores e indicados, por levarem o nome do Brasil ao cenário global.

Essa vitória do cinema brasileiro reafirma o que a gente sempre soube: arte não é só entretenimento. É uma ferramenta de denúncia, um grito de liberdade e um que ecoa pelos tempos, um aviso poderoso de que, mesmo nos tempos mais sombrios, nós ainda estamos aqui.