Olá gente boa,

A tristeza é um sentimento único e individual, mesmo sendo uma experiência universal, pois todos nós sentimos tristeza em algum momento da vida. Como diria meu amigo querido Pascoal Maynard: “lá vem Neu falar dele mesmo.” Verdade. Mas só tenho a mim para falar, porque conheço bem minha história, minha caminhada e minha trajetória de vida. Afinal de contas, vivo comigo mesmo há 66 anos.

Sou um sujeito aparentemente desprovido de problemas. Não que eu não os tenha. Tenho, e muitos. Mas aprendi cedo que problema foi feito para ser resolvido. Isso ouvi de minha avó Noemi, mulher forte dessas que a vida endurece, mas não quebra. E assim fui construindo minha estrada: sorriso no rosto, alegria de viver e felicidade sincera por mim e pelos outros.

Mas a tristeza sempre aparecia em alguns momentos inevitáveis. Na perda dos entes queridos, dos amigos insubstituíveis, das despedidas que deixam vazios que ninguém ocupa. Ainda assim, segui firme nos ensinamentos da minha bisavó, que no seu leito de despedida, aos 96 anos, me disse algo que nunca esqueci:
— Meu neto, essa tristeza da minha ida deve ser apenas o começo da saudade boa.

E desde então aprendi a trocar tristeza por saudade boa.

Não há nada de errado em se sentir triste. É reação natural da alma humana. A tristeza é uma emoção básica, sinal de falta, de melancolia, de frustrações, de mudanças, de ausências. É parte da experiência humana. Dizem os especialistas que a solidão é um santo remédio. Eu prefiro o embate. O combate bom. A conversa franca. A busca das soluções. Prefiro a vida acontecendo, mesmo que doa.

Mas existe uma tristeza diferente que venho sentindo atualmente. Uma tristeza mais funda, mais silenciosa e mais perigosa. Ela aparece quando ligo a televisão, acesso as redes sociais ou observo o comportamento da humanidade nesses tempos modernos. As redes, que poderiam ser um dos maiores instrumentos de desenvolvimento humano, também se transformaram num desastroso mecanismo de degradação emocional e intelectual.

Hoje parece que quanto pior, melhor.

Quanto mais corrupto, mais admirado.

Quanto mais agressivo, mais seguido.

Quanto mais machista, misógino, racista ou violento, mais vira exemplo de “força”.

Vivemos tempos estranhos onde mulher defende violência contra ela mesma, pobre idolatra quem despreza pobre, preto defende racista, trabalhador aplaude quem retira seus direitos, gente simples repete discurso de ódio como se fosse oração. E tudo isso embalado numa falsa ideia de liberdade.

Colocam a culpa na política, mas esquecem que política, como dizia Aristóteles, deveria ser a ciência prática do bem comum e da felicidade coletiva. O problema não é a política. O problema é o abandono da humanidade. É o desprezo pelo outro. É a transformação da divergência em guerra permanente. Hoje, para muitos, só presta quem concorda comigo. Quem pensa diferente deve ser eliminado, cancelado, humilhado ou destruído.

E esse pensamento vem contaminando tudo. Inclusive a cultura, a arte e a música.

Na minha área, isso vem se consolidando de forma assustadora. A antiga ideia da “Arte pela Arte” praticamente acabou. E não houve um processo saudável de transição para compreender que arte também precisa sobreviver economicamente sem perder sua essência. O problema é que hoje, em muitos lugares, quem manda na arte já não é mais o artista. São grupos econômicos, algoritmos, interesses políticos, empresários da manipulação emocional e fabricantes de comportamento.

Transformaram cultura em produto descartável.

Transformaram música em fórmula.

Transformaram artistas em números frios de engajamento.

A arte deixou de ser provocação da alma para virar ferramenta de dominação de mercado.

Não tenho nada contra a evolução da música, das linguagens ou dos estilos. Sempre defendi a diversidade cultural. O que me entristece é perceber que estão destruindo a identidade cultural dos povos em troca de consumo rápido, vazio e sem memória. A cultura popular passou a ser tratada como figurino de festa, enquanto os verdadeiros criadores da nossa identidade seguem esquecidos, desvalorizados e muitas vezes humilhados.

Vejo gestores defendendo cultura tradicional em discursos bonitos e, na hora de contratar, ignorando os artistas locais.

Vejo gente levantando bandeira da sergipanidade e pagando fortunas para copiar modelos de fora.

Vejo artistas maravilhosos invisíveis porque não fazem parte do jogo dos números.

Vejo o forró sendo tratado como detalhe em sua própria terra.

Vejo jovens sendo ensinados a consumir tudo, menos conhecer quem eles realmente são.

E talvez seja isso que mais me machuca.

Não é saudosismo barato de velho reclamando do novo. Nunca foi isso. Sempre abracei o novo quando ele vem carregado de verdade, criatividade e humanidade. O que dói é ver a ausência de alma. É perceber que estamos criando gerações inteiras sem pertencimento, sem memória afetiva e sem identidade cultural.

Não consigo mais sentir a mesma alegria ao ouvir certas músicas tocando no rádio. Nem ao participar de alguns encontros que deveriam ajudar a construir caminhos para o futuro da nossa cultura e da nossa gente. Porque muitas vezes o que reina é a hipocrisia. Defendem o tradicional em público e abandonam na prática. Dizem apoiar a música local, mas não valorizam quem produz aqui. Se espantam quando um artista sergipano cresce, mas esquecem de dizer quantas vezes fecharam as portas para ele antes.

E assim a idade chega.

E junto com ela chegam o cansaço, a correria da vida, as decepções, os silêncios e essa sensação amarga de estar lutando contra um mundo que desaprendeu a ouvir. Fica difícil para qualquer pessoa normal não sentir tristeza diante disso tudo.

Mas aviso aos navegantes: como minha bisavó me ensinou — e ela viveu o suficiente para saber o que dizia — nossa família veio ao mundo para fazer raiva, e não para tê-la.

Então sigo.

Triste às vezes.

Indignado muitas outras.

Mas ainda acreditando que a cultura, a arte, a música e o amor ao próximo podem salvar a humanidade dela mesma.

Porque enquanto existir alguém cantando com verdade, escrevendo com alma, dançando sua identidade ou resistindo através da cultura popular, ainda haverá esperança