Olá gente boa,

Há muito tempo eu não assistia a um show tão simbólico para nós, brasileiros, como foi o mega espetáculo de Shakira na Praia de Copacabana. Uma artista colombiana, quase uma santa pop, abraçada por um dos cenários mais emblemáticos do mundo, reunindo mais de dois milhões de pessoas. Onde mais isso seria possível senão aqui, nesse Brasil de fé, festa e música?

Fui apresentado ao trabalho de Shakira pela dança, através da mestra, bailarina e coreógrafa Cecília Cavalcante. Desde então, passei a acompanhar, ainda que de longe, essa mulher que é muito mais que uma estrela pop: é uma artista inquieta, uma defensora da liberdade, da mulher, da expressão. Alguns podem rotular, mas, no fundo, o que ela é mesmo é um ser humano de talento e sensibilidade, que luta com unhas e dentes por aquilo em que acredita, em defesa dos que precisam.

E mais uma vez, Shakira mostrou ao mundo algo que nós, por vezes, esquecemos e muitos não valorizam: a força da nossa música. Como já vimos em encontros históricos — Frank Sinatra com Tom Jobim, Michael Jackson com Olodum, Paul Simon também com o Olodum, ou ainda Amy Winehouse reverenciando nossas sonoridades — o que vimos ali foi mais do que uma participação: foi entrega, foi estudo, foi respeito.

Shakira não chegou ontem. Há décadas ela se relaciona com o Brasil, com a nossa música, com a nossa gente. Aprendeu a falar português, se aproximou da nossa cultura e, agora, ao celebrar sua trajetória, fez algo raro: colocou o Brasil no centro do seu palco, não como cenário, mas como protagonista.

A “Loba” se encantou com o “Leãozinho” e levou ao palco nada menos que Caetano Veloso. E não parou aí. Trouxe também Maria Bethânia, que, com sua presença única, interpretou Gonzaguinha e deu, em poucos minutos, uma verdadeira aula de interpretação — dessas que não se ensinam, se sentem. E Shakira, como boa artista, observou, absorveu e respondeu à altura.

No comando do espetáculo, mostrou que sabe exatamente o que faz. Domina o tempo, a emoção, o olhar e o contato com o público. E, nesse encontro, ainda trouxe duas forças brasileiras contemporâneas: Anitta, com sua linguagem direta e potente, e Ivete Sangalo, um verdadeiro furacão de palco. Ivete chegou como só ela sabe, arrebatando tudo, puxando Jorge Ben Jor com “País Tropical” e transformando a praia num coro gigante. E ali, entre risos, energia e cumplicidade, protagonizaram um dos momentos mais espontâneos e inesquecíveis da noite.

Do ponto de vista técnico, um espetáculo grandioso: drones, telões de alta performance, iluminação cênica de tirar o fôlego, e o uso do VS/Backing Track — ferramenta cada vez mais presente em shows desse porte, que garante camadas sonoras impossíveis de reproduzir ao vivo com fidelidade total. Há quem critique, há quem defenda. Eu, particularmente, ainda reflito sobre isso. Mas, entre ouvir imperfeições ou garantir uma entrega estética consistente, entendo o caminho escolhido — principalmente em um show que exige tanto do corpo, da dança e da representação.

Mas, acima de tudo, o que ficou foi o gesto.

Uma mulher latina, mãe, artista global, que poderia simplesmente fazer mais um show grandioso, escolheu fazer diferente: escolheu valorizar. Não colocou artistas brasileiros como adorno, mas como parte essencial da narrativa. Cantou em português, reverenciou nossos mestres, compartilhou o palco com nomes que não precisam de validação — porque já são história.

E é exatamente aqui que mora o ponto central.

Não podemos permitir que, em nome de interesses políticos, a cultura brasileira seja empurrada para a margem. Já passou da hora de provar qualquer coisa. Nossa música, nosso cinema, nossa literatura… já tomaram o mundo — e seguem mostrando quem somos.

Num tempo em que muitos de nós ainda lutamos por espaço, por reconhecimento, por respeito dentro da nossa própria terra, veio uma artista de fora nos lembrar quem somos.

Viva Shakira.

Viva Caetano, Bethânia, Ivete, Anitta.

E viva, acima de tudo, a música brasileira — essa força que o mundo inteiro reconhece, mesmo quando a gente esquece.