Olá gente boa,
Eu nunca tive dúvida ao afirmar: os Pontos de Cultura são a maior e mais transformadora política cultural do mundo. Criados em 2004, num momento raro de escuta e ousadia do Estado brasileiro, eles nasceram com uma missão simples e revolucionária — apoiar aquilo que o povo já faz, onde o governo nunca chegou. E agora, em 2025, vejo Sergipe viver um marco histórico com 78 Pontos de Cultura ativos. Isso não é apenas gestão: é retomada de dignidade, memória e pertencimento. Um avanço construído pelo trabalho da Funcap e do Governo de Sergipe e agora com a Secult, que entenderam a importância dessa política.
O papa Francisco abraçou a ideia e criou os Pontos de Encontro e os Agentes Jovens de Cultura Cidadã no Vaticano. A ONU e diversos países reproduziram o modelo. Mas antes do mundo reconhecer, quem fez isso existir foi o povo brasileiro. Os Pontos floresceram porque nasceram da cultura viva das comunidades — não de gabinetes, nem de discursos.
Mesmo assim, essa política sofreu perseguição, cortes, criminalização e tentativa de apagamento. Entre 2011 e 2016, o Cultura Viva foi sufocado pelo próprio Estado que deveria fortalecê-lo. Editais cancelados, convênios bloqueados, orçamentos reduzidos a pó. Em 2015 e 2016, o orçamento federal do programa chegou a zero. Mas o povo não parou. Muitos seguiram sem receber um centavo, sustentando o que tinham construído com autonomia e afeto. E mais de 2 mil iniciativas continuaram se autodeclarando Pontos de Cultura, mesmo sem apoio oficial.
A força desse programa está na aderência ao que já existe: tradições, coletivos, escolas de mestres, arte comunitária, cultura digital de periferia, economia solidária, rádio livre, infância, ancestralidade, fé, poesia e invenção.
Entre 2004 e 2010, viveram-se anos luminosos. Em seis meses, de zero foram para 72 Pontos. Logo depois, 470. Em 2009, já eram 3,5 mil espalhados em 1.100 municípios, alcançando de 8 a 9 milhões de pessoas. Orçamento federal de R$ 450 milhões naquele primeiro ciclo. Foi o tempo das Teias, das redes, da gestão compartilhada entre Estado e sociedade. Uma quebra de hierarquia cultural inédita.
A lista de ações mostra o tamanho da inovação:
– setecentas bolsas para mestres griôs
– 11 mil jovens agentes culturais
– cultura digital e software livre, com formação em quilombos, favelas e cidades pequenas
– estúdios multimídia e mídia livre
– economia solidária e moedas comunitárias
– Interações Estéticas e Escola Viva
– cultura e saúde, cultura da infância, Pontinhos, Pontões, Tuxauas
– Prêmio Asas para quem concluía convênios
– encontros nacionais, estaduais, publicações, intercâmbios internacionais
A política virou referência em mais de dezessete países: Argentina, Peru, Costa Rica, Colômbia, El Salvador, entre outros. Nasceu a Cultura Viva Comunitária na América Latina. Enquanto o Brasil desmontava sua própria criação, o continente a abraçava.
Mas a história não acabou no retrocesso. Ela ressurgiu. E Sergipe é hoje parte dessa retomada concreta e simbólica.
Quando olho para o que estamos construindo no nosso estado, vejo mais do que números. Vejo exemplos vivos, pulsantes, que comprovam o poder da política:
- Filarmônica Nossa Senhora da Conceição, em Itabaiana – música como identidade e futuro
• Grupo Imbuaça, Aracaju – teatro popular como escola de vida e resistência - Ponto de Cultura Albertina Brasil – Acessibilidade e Equidade, Nossa Senhora da Glória – inclusão como prática e não discurso
- Instituto de Música Maestro Antônio Silva, Ribeirópolis – formação musical de raiz
- Pescando Memórias, em Socorro – tradição, oralidade e pertencimento ribeirinho
• Poço Redondo: Cultura Viva e Pontos de Cultura – Raízes Nordestinas, sertão como voz, memória e criação
Cada um desses Pontos tem nome, história, rosto, luta e comunidade. Eles não dependem da cultura para existir. Eles são a própria cultura existindo.
O que estamos vendo agora em Sergipe — 78 Pontos ativos — é mais do que um avanço institucional. É reparação histórica. É reconhecimento da cultura como direito, não como favor. É a compreensão de que o povo produz conhecimento, arte, afeto e transformação todos os dias, seja com uma zabumba, uma ciranda, um documentário, um cortejo, uma lembrança de infância ou uma graduação em teatro.
Como disse Célio Turino, (Célio Turino é escritor e gestor cultural, elaborador do Cultura Viva e dos Pontos de Cultura) essa política só pôde existir quando o Estado se permitiu perder o controle — e confiar na potência do povo. Agora, após o ciclo de “encantamento, expansão, contenção e declínio”, vivemos o tempo da reinvenção. E Sergipe está na linha de frente.
Os Pontos de Cultura não morreram. Eles apenas provaram que não cabem em decreto nenhum. Eles sobrevivem porque são feitos de gente. E onde há gente fazendo cultura com sentido, há política viva.
“De ponto em ponto construiremos uma linha reta para o futuro”
