Olá, gente boa.
Volta e meia me pego lembrando de um tempo em que o artista sergipano tinha palco. Tinha estrada. Tinha calendário. Tinha dignidade.
E não era só na música. O teatro pulsava, a poesia ocupava as praças, os grupos viajavam o interior levando arte e identidade. Produzíamos com qualidade.
Disputávamos espaço nas rádios. Subíamos no palco do Atheneu, dos festivais, dos encontros culturais. Criávamos nossos próprios territórios, como o Circo Amoras & Amores, idealizado pelo talentoso Jorge Lins, que até hoje resiste com bravura.
Havia um princípio simples: valorizar o que é do nosso sergipinho.
Durante o governo de Antônio Carlos Valadares, a política cultural tinha um eixo muito claro — interiorizar e priorizar artistas sergipanos. Nos grandes eventos havia nomes nacionais, sim. Mas dividiam palco, estrutura e visibilidade com os artistas locais. Era política pública. Não era improviso.
Chegamos a fazer 80, 90 shows por ano. Vivíamos da arte.
Com o tempo, o mercado percebeu que o poder público era um grande contratante.
Grandes empresários estruturaram estratégias comerciais robustas: pacotes fechados, exclusividades, intermediações complexas. Criou-se um referencial de mercado inflado, baseado em notas fiscais cada vez mais altas.
Enquanto isso, nossos artistas locais — inseridos em um mercado privado frágil, com pouca demanda e poucas emissões fiscais — ficaram presos a uma armadilha perversa:
Não podem cobrar mais porque não têm histórico (nota).
Não têm histórico porque não conseguem cobrar mais.
E o gestor público, mesmo querendo valorizar, fica receoso diante do controle formal.
Mas é preciso esclarecer algo importante:
Órgãos de controle não exigem preço histórico.
Exigem razoabilidade, justificativa técnica, critério objetivo, impessoalidade e motivação administrativa.
Ou seja: não é obrigatório vincular cachê artístico apenas a notas fiscais anteriores. É perfeitamente defensável criar metodologias públicas de referência, desde que técnicas, transparentes e auditáveis.
Durante anos, tratamos contratação artística como se fosse compra de serviço comum.
Cultura não é compra de saco de cimento.
Apresentação artística, dentro de uma política cultural, é ação de fomento.
E o fomento possui marco jurídico próprio.
A Lei nº 14.903/2024, que estrutura o Marco Regulatório do Fomento à Cultura, reconhece que a lógica cultural não é puramente mercadológica.
A remuneração pode considerar: Singularidade artística; Valor simbólico; Relevância cultural; Interesse público; Função indutora do Estado.
O Estado não é empresário artístico.
O Estado é indutor de desenvolvimento.
Hoje vivemos uma distorção perigosa:
- Cachês milionários concentrando grande parte do orçamento público.
- Artistas locais com valores congelados há quatro ou cinco anos.
- Programações muitas vezes impostas por empresários externos.
- Recursos públicos concentrados em poucos.
E ironicamente, parte do mercado que ocupou nossos espaços agora clama por preservação de identidade cultural.
O debate não é sobre gênero musical. É sobre estrutura de mercado e justiça pública. Se nada for feito, continuaremos enfraquecendo nossos pequenos, médios e grandes artistas regionais. E isso não é apenas um problema sergipano — é nacional.
A solução não é simplesmente liberar cachês.
A solução é criar uma régua pública de valoração artística. Uma metodologia clara. Transparente. Auditável. Baseada em critérios objetivos.
Isso muda completamente o debate.
A valoração de cachês artísticos pode ser instrumento de política pública para:
- Corrigir assimetrias de mercado
- Promover diversidade cultural
- Fortalecer economia criativa regional
- Garantir sustentabilidade artística
Condições legais nós temos. Base jurídica existe. Fundamentação técnica é possível.
O que precisamos é decisão estruturada.
Tenho acompanhado de perto a preocupação do governador Fábio Mitidieri com o desenvolvimento do nosso estado. Cultura não é adorno. É vetor econômico, identitário e estratégico. A cultura tem que ser protagonista do Desenvolvimento é seu pensamento.
Vamos estruturar uma política estadual de referência e valoração das contratações artísticas, com critérios claros e respaldo jurídico, Sergipe pode se tornar referência nacional em equilíbrio cultural.
Não se trata de fechar mercado. Nem de confrontar artistas nacionais. Trata-se de justiça.
De inteligência pública. De visão de futuro. Cultura não é gasto. É investimento estruturante.
E quando o Estado entende isso com técnica e responsabilidade, ele não apenas valoriza artistas. Ele fortalece sua própria identidade.
