Olá, gente boa,
Completei meus 66 anos de vida agora no dia 30 de abril. E, em junho, completo 45 anos da escolha que fiz — não por acaso, nem por falta de opção — mas por vocação: viver da arte, ser artista e sobreviver dela.
E é curioso como, junto com o tempo, chega também um outro visitante silencioso: o tal do esquecimento. Ou, pior, a falta de respeito disfarçada de modernidade.
Começo a perceber um certo olhar atravessado de muitos mais jovens — como se envelhecer fosse sinônimo de atraso, como se experiência fosse um defeito, como se quem veio antes não tivesse nada a ensinar. Mas isso, sejamos justos, não é exatamente novidade. A juventude sempre foi imediatista. Sempre acreditou que estava descobrindo a pólvora… ou reinventando a fórmula da Coca-Cola.
A diferença agora é outra.
Estamos diante de uma juventude moldada pela tela, pelo clique fácil, pelo resultado imediato. Uma geração que, muitas vezes, não precisou mover uma palha para aprender — e não por culpa dela apenas, mas por um sistema que substituiu presença por distração, diálogo por silêncio, limite por conveniência.
Claro, há muitos jovens brilhantes, dedicados, sedentos por conhecimento. Mas também há uma parcela que chega carregando vazios — afetivos, culturais e humanos.
Eu fui jovem. E aprendi cedo uma coisa simples: respeitar quem veio antes.
Foram os mais velhos que construíram tudo que está aí. Não estaríamos aqui sem nossos bisavós, avós, pais… Sem essa corrente invisível que sustenta a vida e a história. Sem eles, como costumo brincar, a gente ainda seria só um espermatozoide sonhando em virar gente.
E isso vale também para a cultura.
É impossível querer ser músico sem conhecer Luiz Americano, sem entender o que fez João Gilberto, sem se emocionar com Cartola, ou mergulhar na obra de Dorival Caymmi e Heitor Villa-Lobos.
Da mesma forma, é temerário falar em gestão cultural sem passar pelo pensamento de Mário de Andrade, sem compreender a visão de Celso Furtado, sem reconhecer a arquitetura cultural desenhada por Roberto Peixe.
Sem mergulhar na memória organizada por Albino Rubim, sem sentir a leveza inteligente de Isaura Botelho, a visão de Luiz Antônio Barreto, e, sobretudo, sem entender que na prática — na vida real — a cultura pulsa na musicalidade e na ação de Gilberto Gil.
E aqui me permita uma pequena memória.
A gestão cultural no Brasil não nasceu pronta, nem com manual. Ela foi sendo construída no fazer. Lá atrás, ainda no século XVIII, quando surgiram as primeiras casas de ópera, já existia alguém organizando artista, público, dinheiro e espaço. Depois, no século XX, com nomes como Mário de Andrade, a cultura começou a ganhar forma dentro do poder público, como política, como ação estruturada.
Mais adiante, vieram as rádios, o cinema, os festivais, os movimentos populares… e a gestão cultural passou a ser esse organismo vivo, que mistura arte, política, economia e gente. Porque, no fim das contas, gestão cultural nada mais é do que a cultura acontecendo com responsabilidade e direção — é a política cultural em marcha .
E é por isso que me preocupa esse tempo de agora.
Porque estamos vivendo — e aqui eu tomo emprestado um conceito que me atravessa — a ascensão da insignificância.
Tudo é rápido, tudo é raso, tudo é descartável.
Opiniões viram verdades em segundos. Talentos são medidos por algoritmos. E a profundidade, que sempre exigiu tempo, silêncio e escuta, vai ficando de lado.
Mas a cultura… ah, a cultura não se constrói assim.
Ela é acúmulo. É memória. É vivência. É erro e acerto. É estrada.
E quem não respeita isso corre o risco de produzir muito… e significar pouco.
Não escrevo isso como lamento de quem envelheceu. Escrevo como alerta de quem viveu.
Porque o futuro — esse mesmo que muitos jovens dizem dominar — só existe porque alguém, lá atrás, teve paciência de construir o presente.
E sem memória, meu amigo… não há futuro.
No fim das contas, o tempo continua ensinando devagar… e a juventude segue se afirmando no grito — mas quando o grito não aprende a escutar, ele não muda o mundo… só repete a história.
