Olá, gente boa,

Comecei a tocar violão aos nove anos de idade no Conservatório de Música de Sergipe, tendo como professor o querido João Argolo. Naquela época, o que importava mesmo era a diversão, o encantamento com as descobertas. A ideia de futuro era algo distante, quase inexistente. Meu pensamento não ia muito além do almoço do dia. Gostava de jogar bola, cantar e dedilhar as cordas do violão. Vivia o presente, intensamente. O amanhã era uma abstração.

Com o passar dos anos, os pensamentos vão se moldando, se ampliando. Começamos a imaginar o que faremos no final de semana, a nos preocupar com a próxima missa do Salesiano, o próximo jogo de handebol ou o ensaio com o grupo da escola. A adolescência nos leva a paquerar as meninas bonitas e a pensar sobre o mundo, a estética, o amor. O olhar se volta para fora, para o outro, para o desejo.

A fase de pensar no futuro chega de forma súbita, quase cruel. É hora de decidir o que fazer da vida, qual estrada trilhar, quais afetos levar para essa jornada. Fiz muitas escolhas — algumas acertadas, outras nem tanto. Mas havia tempo, havia margem para repensar rotas, recomeçar. É um tempo em que somos audaciosos, desafiamos tudo e todos. Achamos que somos modernos, diferentes, melhores. Acreditamos que nossa geração veio para reinventar o mundo.

Na juventude, participei de festivais de música, ganhei alguns, fiz shows, fui aplaudido. Achava-me uma espécie de pop star. A vaidade própria da juventude me fazia crer que o universo agradecia minha existência. Os fracassos? Culpa dos outros. Os sucessos? Mérito único e exclusivo meu. É um tempo bom, mas passageiro. Logo vêm as frustrações, as decepções, a constatação de que não somos os únicos, nem os melhores.

É aí que começa a verdadeira aprendizagem: perceber que nem todos são gênios — e que não há vergonha nisso. Muitos são talentosos, esforçados, trabalhadores incansáveis. A vida exige mais que inspiração: requer persistência, ética, generosidade. Foi aí que entendi o valor do trabalho verdadeiro, da sinceridade com os outros e, principalmente, consigo mesmo.

Minha mãe, Susete, me ensinou desde cedo que ninguém vive só. Não adianta estar bem se ao nosso redor impera o sofrimento. Somos seres de comunidade, de afeto, de partilha. E assim, com essa consciência, procurei construir meu caminho: uma vida digna para mim e para minha família, e um compromisso com o coletivo.

Cheguei ao futuro. No último 30 de abril, completei 65 anos. Chego com muitos planos, com pressa de realizar, mas também com mais sabedoria. Aprendi a olhar para trás sem arrependimento, reconhecendo que trilhei um caminho digno, coerente com minhas escolhas e minha essência. Sei que nenhum percurso é fácil. E também sei que nunca fui um sujeito fácil de ser conduzido. Mas aprendi, no tempo e com o tempo, a conduzir com respeito, a escutar, a valorizar as trajetórias dos outros.

Aos 65 anos, sigo em missão — aquela que eu mesmo me dei: trabalhar pela cultura, pela arte, pelo meu Sergipinho, como dizia o saudoso João Melo. E quando chegar aos 85 — e eu vou chegar! — quero poder olhar para trás com a certeza de que deixei algo importante nesta breve existência, nesta terra dos cajueiros e dos papagaios.

Agradeço de coração a todos que me desejaram felicidades e me abraçaram com carinho nessa data especial. Estou com 65 anos, com o corpinho de 64 (risos) e pronto, como sempre, para trabalhar pelos meus, por todos nós. Vivamos feliz, pois ainda estamos aqui.