A primeira vez que entrei em um órgão de governo, ligado a cultura, foi no final de 1980, carinhosamente chamado de SUCA, Subsecretaria de Cultura e Arte que funcionava nas dependências da Biblioteca Pública Epifânio Dórea. Tinha como Subsecretário Luiz Eduardo Costa. E já trabalhavam na instituição, Jorge Lins, Amaral Cavalcante, Clara Angélica, Sucupira, entre outros. Lá estive a solicitar a liberação da pauta do Teatro Atheneu para o nosso show Entre Amigos.

Entre Amigos era o nosso primeiro show. Eu, Alexi Pinheiro, Emanuel Dantas, Genival Nunes e Denys Leão, amigos da juventude, já havíamos trabalhado muitas composições, sambas, bossas, canções, marcha, na sua grande maioria, com letras falando de liberdade e luta contra a ditadura militar.

Os nossos encontros, sempre em uma mesa de bar, eram recheados de músicas, discussões e sonhos. A cada reunião projetávamos o show, mas nada saía das discussões. Uma vez, em um barzinho na rua de Estância com Santa Luzia, em uma dessas conversas, um sujeito grande, que bebia na mesa do lado, pediu licença na conversa, com sotaque de baiano, disse: – Meninos, vocês são bons, por que não fazem um show? Respondemos que estávamos preparando e definindo estratégias, pois não idealizávamos o mesmo que já faziam na época. Queríamos um show profissional com uma boa divulgação, um material publicitário bacana. O show seria no teatro Atheneu, com sonorização e iluminação profissional. Pensávamos lotar o teatro e cobrando ingresso. Quase um delírio.

Aí o sujeito disse: – Posso resolver boa parte desse sonho! Ele se apresentou-se, era Eduardo Max, na verdade, Carlos Eduardo Max, o Carlão, publicitário baiano que acabara de chegar em Aracaju para trabalhar em uma das primeiras agências publicitárias de Sergipe, a Hellius Publicidade. Estranhamos a proposta, mas no primeiro dia útil da semana estávamos eu e Alexi na porta da agência. Fomos recebidos por Carlão, e por Rui, que na época era o diretor de arte, e por Hélio, o dono da agência, que eu já conhecia, pois era amigo do meu pai.  A conversa foi ótima e saímos de lá achando que éramos os grandes artistas e produtores.

Rui criou nosso cartaz, com foto do maior fotógrafo de todos os temos da nossa terra, Lineu Lins. Fotos de trabalho do Fernando Souza, com releases bem-produzidos, spot para rádio e VT para televisão. Carlão foi o primeiro a acreditar nessa empreitada e até o último momento estava com a gente na produção de palco. Amigos nos tornamo-nos para toda a vida.

A gente dividiu o trabalho da seguinte forma: eu e Alexi faríamos a produção, buscaríamos patrocínio e faríamos todos os contatos; Genival trabalharia a direção do show; Denys Leão, o projeto de iluminação e Emanuel Dantas filosofava. O primeiro contato foi com Lineu Lins, famosíssimo fotógrafo. Fomos nós até a Avenida Ivo do Prado, conversar com Lineu. Fomos muito bem recebidos e colocamos para ele o projeto. Dissemos que seria um marco na música sergipana, e só queríamos trabalhar com os melhores, mas não tínhamos dinheiro para tal empreitada. Ele riu e disse que pela ousadia e pelo projeto, podíamos contar com ele. Saímos com data marcada para as fotos e o local. Tínhamos pensado a locação ser uma mesa de bar, já que tudo foi pensado nela.

E assim fizemos. Conversamos com um velho amigo, Henrique, dono do Bar Barbudo’s, no calçadão da Atalaia. Era o guru do pedaço. O poeta Amaral Cavalcante escreveu: “O Bar Barbudo’s agregava amorosos e revolucionários”. E lá fizemos as fotos, todas preto e branco. Mesa e bancos de madeira, garrafas de cerveja e copos, tudo sem identificação. Já fechando os trabalhos, pedi para fazer umas fotos com a marca da cerveja Antarctica. Trocamos a mesa para uma com a marca e colocamos duas cervejas com os rótulos virados para a câmara. Naquele momento, lembrei-me de um amigo do meu avô, Dedé Sombrinha.

Desde criança, aprendi a respeitar as histórias de cada pessoa. Sou filho de Maria Susete Japiaçu da Silva, uma linda estanciana. Neto de Jose Alves o Dedé Sombrinha e Dona Marocas. Minha infância passei nas idas e vindas Aracaju – Estância – Aracaju. Adorava ir à barbearia do meu avô Dedé, para cortar o cabelo e escutar suas histórias e as dos seus amigos. Entre elas, algumas eu guardo na lembrança. Seu Damião, chofer de praça, que me ensinou a soltar “buscapé” e seu Raimundo, dono do Bar Central, vizinho “de parede” da barbearia. Seu Raimundo era mais novo que o meu avô, mas admiração que meu avô tinha por ele e o respeito com que tratava meu avô eram grandes. Meu avô contava com entusiasmo, como seu Raimundo era trabalhador. Dizia: – O moleque era tropeiro aos 12 anos. Esse vai ser um homem de sucesso.

E naqueles dias era Raimundo Juliano um dos maiores empresários do Estado. Era ele o representante e distribuidor da cerveja Antarctica, em Sergipe. Resolvi, naquele momento, que iria procurar seu Raimundo para pedir um patrocínio. Não liguei para o pessoal que me caçoava e dizia: – E lá você conhece seu Raimundo? Ele não vai nem lhe atender.

Na distribuidora, apresentei-me como neto de Dedé Sombrinha. Fui recebido na mesma hora e seu Raimundo, com muita alegria, contava sobre a amizade e carinho que tinha por meu avô. Passamos a tarde conversando feito velhos amigos que esqueci o que tinha ido fazer.

Já no fim da tarde, seu Raimundo perguntou:– E aí, Dedé Neto, como posso te ajudar? Mostrei para ele a foto de Lineu que queríamos usar como cartaz do show. Falei sobre o projeto e porque queríamos fazer o melhor show de todos os tempos em Aracaju. Ele sorria de monte. Estava feliz e gostava do que via. Dizia que ninguém nunca foi propor algum patrocínio com um material e ideia tão boa. Por isso, nunca tinha patrocinado nenhum show e que o nosso seria o primeiro.

A distribuidora Raimundo Juliano pagou todo material de divulgação, impressos, em parceria com a gráfica Nacional, mídia na TV Sergipe e todos os produtos do nosso cenário que foram réplicas do Bar Barbudo’s.  Seu Raimundo, até falecer, chamava-me de Dedé. Sempre estava com as portas abertas de suas empresas, assim como seu filho, Juliano Cesar, dois grandes e queridos amigos.

Resolvida a primeira parte do processo de produção, concentramo-nos no aspecto música. Convidamos alguns músicos amigos, como Maurício Botto, pianista, arranjador, que fez a direção musical;  Jairo Bala, baixista, com muita experiência na música gospel; Marcos Passos, baterista e amigo do colégio Salesiano, também compositor e parceiro do poeta Hunald Alencar, uma referência para todos nós; Cal Alencar, flautista e músico com ouvido absoluto, tranquilo e criativo; Paulo Bedeu, percussionista e criador do Bloco Rebu, um dos precursores da percussão em Sergipe, junto com Marcos Mancada; uma voz feminina para acalmar aquele bando de homens, a cantora e compositora Dalila Aragão. Convidamos dois grandes cantores e arranjadores vocais para trabalhar com a gente e preparar nosso canto, os irmãos Jairo e Joel Alves, oriundos do grupo Órion, até hoje o melhor grupo vocal de Sergipe e do país.

Ainda tivemos a participação de outros amigos importantes. Alberto Alcosa, um artista de mão cheia, que teve a ideia do nosso cenário e pintou um painel enorme do Henrique Souza, músico e professor, que havia falecido pouco tempo antes do show e que fizemos uma homenagem por toda sua trajetória musical em Sergipe. Um revolucionário com seu método “Prático Rápido e Eficiente”. Joésia Ramos fez uma participação no show. Linda voz e compositora que adorávamos. Lealdo Feitosa, o nosso dono do bar. Por coincidência ou não, Lealdo montou um bar e restaurante, Teimonde, sucesso durante anos. Wanderlei de Jesus, Dida Araújo, Laminha e Wilson Goís, todos da TV Sergipe, com as imagens do primeiro Clip gravado em Sergipe, Gênese, que nos colocou na mídia e na história.  O Grupo Entre Amigos ficou assim formado: Irineu Fontes, Alexi Pinheiro, Emanuel Dantas, Dalila, Denys Leão, Genival Nunes, Jairo Bala, Maurício Botto, Marcus Passos e Paulo Bedeu.

O grupo fez no começo da década de 80 uma grande revolução na produção musical e artística da época. Pensando grande e profissionalmente fomos buscar em Salvador sonorização e iluminação profissional. Trabalhamos com profissionais em todas as áreas, direção musical, direção artístico e arranjos. A produção buscou na iniciativa privada, e conseguiu o apoio e patrocínio. Uma mudança radical no conceito de show musical em Aracaju. Foram montados dois históricos shows, o Entre Amigos, em 1981 e Brasil Conversa de Fome em 1982

O Jornalista Luiz Adelmo comentou em sua coluna diária no Jornal de Sergipe, em 1981: “É altamente gratificante quando se sai de casa para assistir um espetáculo com o pessoal da terra e aí para surpresa nossa nos deparamos com um show lindo e de nível profissional. (…) a direção é do Genival Nunes, (…) Entre Amigos Irineu, Alex, Emanuel, Marcos Passos, Mauricio Botto, Paulo Bedeu, ou seja, tudo entre amigos e principalmente com muita vontade de fazer coisa séria”.

Inspirados pelo novo momento vários artistas começaram a produzir shows musicais com as mesmas preocupações: Joésia Ramos, com o Show Cantarina; Mingo Santana, com dois shows, Lógica em 81 e Navegando em 82; Lula Ribeiro, com o Show Florescer, Marcos Passos e Hunald Alencar; Irmão e Tonho Baixinho; Clara Angélica com Anjo Azul; Fados Tropicais com o Alexandre Português; Grupo Repente com o Jota Carvalho e o Robério; Grupo Bolo de Feira, entre outros.

São 40 anos daquele momento que subimos ao palco para falar de liberdade, para mostrar que éramos capazes e que podíamos produzir, cantar músicas, como “Entre amigos”: O sol já raiou. Carnaval, tradição de um sofredor. Brasil eis aqui o teu perfil. Gritar fundo com “Passeata”: Lojas, chalés, bares, cafés, servem de proteção. Na confusão, salve-se quem puder. Mostrar a nossa cara em “Tributos aos Vagabundos”: Os lesos, lisos, loucos estão soltos por aí. Ricos maltrapilhos, falsos burgueses, assim se diz. Ou lavar a alma com “Genêse”: É a voz, é aflição dos imortais, é a Genêse. Fizemos história, quebramos paradigmas, deixamos nosso rastro.