Olá, gente boa.
Aos 66 anos de idade e depois de mais de 45 anos dedicados profissionalmente à cultura, percebo que, de vez em quando, preciso explicar algumas coisas. Não para me justificar, mas para que algumas pessoas entendam que não precisam ficar chateadas comigo apenas porque penso diferente ou porque expresso minhas opiniões.
Fui educado por grandes mestres. Alguns tinham diplomas, outros tinham apenas a sabedoria da vida.
Minha bisavó Noemi, filósofa sem nunca ter frequentado uma universidade, foi uma delas. Minha avó Marocas ensinava muito mais com o olhar do que com palavras. Meu avô Dedé Sombrinha, barbeiro de Estância, conhecia a alma humana como poucos. Sem sair da sua barbearia, aprendeu a ouvir, compreender e respeitar as diferenças de uma cidade inteira.
Minha mãe foi outra grande professora. Dela guardo ensinamentos que me acompanham até hoje. Costumava dizer:
— Meu filho, se não souber, pergunte. Busque informação. Estude. Mas não saia sem conhecimento. Não viva de achismos nem de meias verdades.
Já minha bisavó repetia:
— Nunca tenha medo de defender aquilo em que acredita. E não se preocupe demais com a raiva dos outros. Viemos ao mundo para provocar reflexões, não para carregar rancores.
Aprendi cedo que respeito não significa concordância. Podemos respeitar a verdade do outro sem abrir mão da nossa própria verdade.
Meu tio José Calazans também deixou lições valiosas:
— Misture-se com os bons. Aprenda a ouvir. Não precisa aceitar tudo o que dizem, mas precisa compreender os caminhos que eles percorreram. Você também terá os seus.
Como todo jovem, muitas vezes discordei dos mais velhos. A juventude tem pressa, energia e uma enorme vontade de mudar o mundo. Em muitos momentos revi minhas posições, porque a experiência costuma enxergar coisas que a impaciência não consegue ver. Em outros momentos, procurei mostrar novos caminhos para os mesmos problemas.
Mas jamais me ensinaram que discordar é desrespeitar. Pelo contrário. O maior ensinamento que recebi dentro de casa foi simples:
“Respeite para ser respeitado.”
Hoje observo uma geração que vive conectada a um fluxo permanente de informações. Redes sociais, inteligência artificial, influenciadores digitais, notícias instantâneas e opiniões produzidas em escala industrial.
Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. Mas também nunca convivemos com tanta dificuldade para ouvir.
Muitas vezes, quem pensa diferente deixa de ser alguém com outra visão e passa a ser tratado como inimigo. O debate vira confronto. A divergência vira ofensa. A conversa vira cancelamento.
E isso não acontece apenas na política. Acontece na cultura, na educação, na economia e até dentro das famílias.
Vivemos uma época em que muitos falam sobre tolerância, mas poucos toleram ser contrariados.
Tenho a impressão de que estamos desaprendendo algo fundamental: a convivência.
Fico imaginando como será o futuro se continuarmos escolhendo adversários para destruir em vez de pessoas para compreender. Primeiro se tenta silenciar alguém nas redes sociais. Depois se tenta desqualificar sua história. Mais adiante, elimina-se qualquer possibilidade de diálogo.
A história da humanidade mostra que esse caminho nunca terminou bem.
Toda forma de intolerância começa pequena. Surge em palavras, cresce nos preconceitos e, quando não encontra limites, transforma-se em perseguição.
Por isso me preocupam menos as diferenças e mais a incapacidade de conviver com elas.
Não gosto de quem pretende ensinar felicidade como fórmula pronta. Não gosto de quem acredita possuir todas as respostas. Não gosto de quem tenta impor aos outros uma única maneira de viver, pensar ou sentir.
Prefiro os que fazem perguntas.
Prefiro os que escutam.
Prefiro os que duvidam das próprias certezas.
Talvez por isso minha maior referência continue sendo Jesus. Não pelo discurso religioso, mas pela dimensão humana da sua mensagem. Ele falou de amor, compaixão, perdão, acolhimento e respeito ao próximo quando quase ninguém falava dessas coisas.
E, mesmo assim, foi incompreendido.
A boa notícia é que ainda podemos mudar.
Podemos reaprender a ouvir.
Podemos reaprender a pensar.
Podemos reaprender a votar.
Podemos reaprender a conviver.
Eu sigo por aqui, guiado pelos ensinamentos daqueles professores e professoras que a vida me deu.
Continuo acreditando que o respeito vale mais que a intolerância. Que o diálogo vale mais que o grito. E que a liberdade só faz sentido quando existe para todos.
E, só para deixar claro: não sou Jesus. Por isso, se me baterem numa face, não prometo oferecer a outra. Mas prometo continuar defendendo aquilo em que acredito. Com respeito, firmeza e liberdade.
